De baixo dos Cachos
Por Ju Corrêa
quinta-feira, julho 02, 2026
Me perguntei se poderia escrever sobre aquela tarde, aquelas horas em que fiquei admirando a luz do sol delineando seus cachos, e o jeito que sua boca sorria a cada ideia mirabolante, planejando encontros que nunca iam acontecer, sua mão na cintura, seus lábios grossos, seu sorriso, o jeito sem graça que você desviava dos meus olhos. Me sentei do seu lado, seu hálito fresco na escuridão dos meus olhos fechados, mergulhados no oceano do meu interior, era um absurdo convite a saliva, lábios e cheiros.
Respirei.
Nem todo banquete é para ser enfurecidamente desfrutado, embora adoraria desprender-me das amarras, comer com as mãos, deitar sobre a mesa.
Respirei.
Já era dia.
domingo, novembro 02, 2025
raciocínio
Pensei em fazer uma pequena lista de mulheres que são casadas, mas não deveriam estar casadas/namorando...
Começo só com as iniciais:
I
K
J
B
L
L
D
R
P
E
V
F
R
domingo, setembro 14, 2025
segunda-feira, março 31, 2025
pequena e grande
As cidades pequenas expressam uma força imagética efêmera. Uma praça adornada com uma bela Igreja estilo barroco, árvores frondosas, casinhas estilos colonial, com seus telhados e acabamentos em madeira, janelas de abas duplas, e cores das mais diversas. Sempre há alguém que repousa por mais tempo do que é necessário nos bancos da praça. Há crianças correndo pelos arredores, carros que contornam as ruas de pedrinhas, como besouros cansados e despreocupados com o tempo. Pois, é assim que as cidades pequenas funcionam, despreocupadas com o tempo.
Certo dia, uma menina desconhecida desaprendeu-se do ônibus, que outrora viajava entre o município pequeno e a grande cidade. E, por ainda não entender as entrelinhas de uma cidade pequena, apresentou suas dúvidas para onde partiria para alguém da pequena cidade, com os dizeres econômicos: preciso ir ao Conselho Tutelar.
Mas, o que a moça da cidade grande esqueceu, é que os integrantes desse órgão eram nomeados pela população e de conhecimento total de todos, visto a pequenez das ruas e das distâncias, e longitude das línguas dos residentes.
E de certo e de errado, foi-se espalhando por entres as papilas gustativas dos pequeninos moradores, que havia uma nova pessoa trabalhando no órgão ora temido, ora desacreditado na cidade.
Em mais uma viagem, sem saber a reverberação de sua menção, a senhorita tornou a confirmar sua relação com o conselho tutelar. Mas, dessa vez, a dúvida real e urgente, já era dos próprios integrantes do órgão, que botaram a cara na rua a procurá-la, como quem fareja desordem. Que datada a descrição dos transeuntes do veículo automotor, diziam estar de calça e blusa claras, portando bolsa com as insígnias do Conselho Tutelar.
Mas, ora bolas, quem será? Passou pelas rentes cabeças, que ali fornicavam hipóteses, que poderia ser uma fiscal, a mando de gente grande da Casa da Justiça, a mando do Ministério Público. O grande MP.
Por derradeiro que o mistério tornou-se indissolúvel, sem poder se dissolver nas ilusões do povo, pois a moça havia sumido. Não se via ninguém na rua que fosse ela, pois se não fosse ela, era gente conhecida, e gente conhecida da cidade, não era ela.
Grandes e irreverentes histórias foram criadas para explicar o tal sumiço, já que o ônibus não vinha sempre, e não retornara para que ela pudesse zarpar nele sem dar explicações.
Nem carro estranho tinha se submetido nas ruas, a fiscalização se mostrou intensa.
Foi que num salto quase angelical, que lá das paredes do prédio do órgão subjugado, ouviu-se um cântico doce e crianças rindo. O som havia tocada docemente os ouvidos de uma quase moradora. Quase, pois os seus pés ainda estavam levitando sob as calçadas da pequena cidade.
E de lá, de dentro do conselho tutelar, ela pode entender de onde vinha a novidade. Era da casa bonita que se modificava a cada dia. Ontem fachada um pouco morta, hoje viva e reluzente.
Casa que tinha um caminho de entrada de casamento, cheio de plantas. O grande corredor do portão principal, corredor floresta, que era o máximo que algum curioso poderia ver.
E a curiosidade tomou todo o corpo da quase residente, que se pôs a andar em direção a casa, e viu a soslaio a figura doce de uma professora, de blusa e calça clara, e em cima da mesa uma bolsa cheia de bonequinhos felizes desenhados.
Fim do mistério. A moça da cidade grande, e de grandes sonhos, tinha recebido a oferta de dar aulas, na casa de grande gente, e de grandes feitos, de grandes pretensões. E lhe deram um simples indicativo: fica em frente ao Conselho tutelar.
E a casa, apesar de grande, tinha algo muito maior, grande mesmo, era ofertar cultura para toda gente da pequena cidade. Sonho que aqueles que regavam o corredor floresta, cultivam em seus corações.
Corações grandes, em pequenas cidades.
As cidades pequenas tem dessas coisas fortes, de ser uma almagama entre ruas, árvores e pessoas, ninguém entre ou sai sem ser percebido, é viva e voraz. E cheia de belezas internas, de "coisices", de fofocas e meias verdades. Mas, ela se dobra para ver a novidade, que embora possa ser julgada, traz a esperança, traz a grandeza.
Alguém um dia dirá: nas pequenas cidades, há uma grandeza singular.
quinta-feira, dezembro 19, 2024
juventude
Sem perceber atropelei com meus ímpetos de juventude a sensibilidade do seu olhar.
Mas, no andar da velocidade das pontes, direções e unguentos que me atravessavam, eu vi..
Vi que a serenidade de como você enxerga o tempo e as coisas, eram na verdade muito mais urgentes e necessárias.
Peguei-me a refletir, por acaso, quais seriam as minhas atitudes daqui há um tempo.
E quais já são as minhas leituras da vida, em comparação aos mais novos.
Certo que na minha experiência, nessa nossa pequena interação, pude enxergar beleza e imensa compaixão.
Será que ainda serei capaz?
Será que fui capaz?
Tomara que sim, no futuro e no passado.
De onde estiver, saiba: te amo.
terça-feira, novembro 05, 2024
hiato
Deveria se chamar o hiato da mãe, ou momento de hiato da mãe.
Será?
O que seria um hiato?
E para mim, mãe?
No momento mais movimentado do dia: paz.
No hiato de uma mãe, e direi em terceira pessoa, ela se viu absorta na escuridão do que fazer.
Havia mil coisas, mas a ação escorrera de suas mãos em pensamentos profundos e rasos de solidão.
A soletude não era temida por ela, era até querida. Mas, não assim. Do nada, sem planejamento.
Ela tinha livro e artigo científico para ler, série para ver, louça para lavar, cama para estender, música para ouvir. E ela não fez nada. Nem comer fazia muito sentido.
Teimou a distância, tentar segurar os fios dos cabelos das filhas, verificar as roupas, o filho está bem?
Cadê meus filhos?
A saudade arrebatava. Tentou tomar um banho quente, sem interrupções, procurando achar na memória a sensação de esgotamento, e de asfixia, daquelas vezes que eles amontoaram por cima dela, e pressionaram tão forte o peito, até que ela ficasse sem ar.
Era o amor.
Era o querer.
Um pedaço seu para cada um dos três filhos.
Ela não achou.
Era só água quente e silêncio.
Nada que pudesse dizer: alívio.
Ao invés disso, teve a sensação da pequena no colo, o cheirinho de leite azedo no pescoço, o tom de ouro dos cabelos da do meio, o abraço apertado e gostoso do mais velho.
Que saudade.
Eram só horas, mas que saudades.
Então, como o nada parecia tão afável, ela abraçou a solidão, saudosa, até com lágrimas, e tentou dormir.
Por que dormir para mãe era também difícil.
A mãe nem sempre dorme. Acorda a madrugada toda, dá peito, preocupa com o cobertor que escorre do corpo da filha, se o filho colocou manga comprida.
Ela acorda 5h da manhã, e preocupa.
Dorme mais um pouco, mais a pouco temos que o acordar o João.
Para o João tem que ter carinho e paciência, para a Isis e Juju o colo e beijinho. Lembre da mochila, do remédio.
A mãe não dorme.
Vou dormir. No meu hiato, vou dormir.
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